Tratado das pequenas coisas


Instantes vazios
Outubro 30, 2009, 7:18 am
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estante

Gosto de passear por cidades antigas, acho metafísico tocar num muro de pedra de cantaria que sempre esteve ali, desde o tempo dos escravos. Essa mesma pedra calcinada também foi tocada por seres que viviam sua rotina banal há duzentos anos atrás; isso me deixa bobo. É como se esses lugares fossem máquinas do tempo, pegando todo mundo pela mão.

Falando nisso, o que foi feito das divagações dos nossos antepassados? Será que existe alguma repartição no etéreo, feito essas emissoras de televisão que guardam as novelas da Janete Clair, onde ficam arquivados os pensamentos ambiciosos e as conversas vãs?

Coitado do Arnaldo Jabor, sofrendo com os reacionários, com o Senado, com o Hugo Chávez, com o MERCOSUL… Penso em seu tataraneto, caminhando por alguma rua do Leblon com seu tênis motorizado, fazendo planos, procurando estágio, inventando ideias de revolução, dono do seu tempo.

Quem sou eu além das circunstâncias em que me inseri? Para me sentir mais próximo de mim, inventei de gostar de um certo tipo de música, absorvi certos conceitos, dispensei outros, adotei hábitos, estudei culturas, escolhi livros que agora só servem para dar sentido à vida das estantes, que para nada serviriam se permanecessem vazias.

Somos estantes vazias, à espera de algum conteúdo que nos dê sentido.