Tratado das pequenas coisas


Natureza Viva
Abril 3, 2009, 9:38 pm
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partitura

Se eu pudesse ser algo abstrato, uma obra de arte, uma natureza viva, seria uma melodia. A melodia é ousada e materializa-se em qualquer dimensão. Pode ser densa e nunca notada; não pertence a grupos ou ao criador de sua cadeia de notas; a melodia dança todos os ritmos quando realmente bem construída; doida em vestes de santo, pura em poses de puta, lobo em pele de cordeiro, cordeiro que se alimenta de carniça; a melodia se vende barato em Copacabana, se vende com requinte em sarau clássico no Velho Continente, em Genebra. Amada pela juventude cheia de si, repleta de sexo, show de rock na MTV; amada pelo maestro de câmara, coreógrafo tcheco no balé do Municipal; tocada nas rádios populares, nos morros e praias; tocada nas orquestras, sinfonias e concertos em si bemol; ouve-se nos potentes compact discs em incredible surround sound, ouve-se num vinil de um senhor bonito no interior de Alagoas. A melodia invade a película do cinema, brinca com seus elementos, interage e comove, faz o mocinho matar ou morrer, inspira e incentiva o beijo do final; a melodia invade a pintura quando se condensa em traços, como fio condutor, onda propagadora de inspiração; a melodia funciona em todos os vínculos de comunicação, em todas as formas de arte: dança, poesia, pintura, cinema, teatro, televisão. Ela cabe na canção, no assobio e no verbo falado. E ainda assim, funciona sozinha, sem a necessidade de mais ninguém. Se eu pudesse ser uma coisa bonita e completa, eu seria uma melodia. Com certeza.


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