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Eu assisto Big Brother. Corre solto um boato de que você não pode assumir isso em voz alta, é como se dissesse: eu guardo bonecas dentro de mim! Como se fosse uma questão de caráter. Alega-se que é cultura inútil. Mas aí eu vou ter que te perguntar, colega: e o futebol? Não falo de quem pratica o esporte, mas de você que o assiste com uma lata de cerveja na mão e o pé no capacho. Que paga seu ingresso e vai ao estádio e chora e sofre e canta hinos como um evangélico. E a religião? Você que chora e dá o dízimo e canta hinos como fanático de futebol. Aqui tem um bando de loucos, loucos por ti, Jesus. E luta de boxe? E novela da Globo? E quem lê revista de famosos no salão de beleza? E quem vê filmes americanos, lê livros da Stephenie Meyer, vai a raves, fuma cigarro, fuma maconha, come chocolate, dorme até tarde, vive na praia, curte fetiches, come melecas, toma remédios?
O BBB divulga conflitos, traições, intrigas, promiscuidade, rivalidades? Leia as melhores peças de Shakespeare, você vai encontrar tudo isso lá. Vá até a vida e você vai encontrar tudo isso lá. Corre o boato que tudo ali é armado, editado. Se for verdade, seus participantes são melhores que todos os atores que já vi em cena, tirando o Wagner Moura. O impressionante é que o programa é melhor que um punhado de novelas, filmes, peças de teatro que há por aí, pois em muitos desses falta o essencial: vitalidade.
O reality show é uma dose concentrada de vida, revela muito do que somos quando levados ao limite. Reconhecemos através do outro, atitudes que camuflamos e diluímos na vida aqui fora, mas que, por serem tão próximas, quando reveladas assim de forma quase obscena, nos intriga e nos surpreende. Nos surpreendemos com o que somos. Gostamos de ser desmascarados, ainda que na figura do outro. Até onde podemos ir? Cada um se vê em algum dos competidores e isso pode ser terrível. Quem eu seria ali? Quem eu fuzilaria num paredão? Você já sabe a resposta, mas guarda no calabouço, não quer acreditar. Aquilo é um laboratório humano e me admira que atores não tenham humildade de estudar aquelas personas tão controversas.
A dura verdade é: as pessoas adorariam o programa se ele fosse uma experimento do governo austríaco, sob a alegação de pesquisa freudiana do inconsciente coletivo. Ou se fosse um projeto criado pela revista Bravo, só com intelectuais. Mas o fato de serem exatamente aqueles indivíduos, muitos deles futuras capas de revistas masculinas, embute na atração o rótulo de cultura inútil e gera um desprezo das mesmas pessoas que consomem, sob diferentes formatos e sabores, outras inutilidades. Ignoram que os participantes são gente como a gente. Freud não abriria mão de nenhum deles. Existe mais um despeito com ‘o elenco’, do que com a ideia do programa em si.
Pois a ideia não difere em nada daquela nossa velha curiosidade em parar para assistir um acidente na rodovia, de aumentar o volume para ouvir aquela notícia bombástica no telejornal, de espiar pelo buraco da fechadura a janela do vizinho, de postar vídeos no Youtube, de colocar fotos pessoais no Orkut, de se exibir na câmera do MSN, do celular, de destilar na mesa de bar a fofoca diária sobre a vida alheia. Estamos sempre querendo revelar, um pouco por vaidade, um pouco sem querer, nossa privacidade. E isso pode parecer no primeiro momento uma tanto descartável, uma futilidade. Mas pode ser também o eterno desejo humano do encontro, de entender a si no outro, de abrir a porta de casa, de convidar para entrar.
4 Comentários até o momento
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Sensacional seu texto!
Comment por Pedro Henrique Abril 12, 2009 @ 4:22 amAbraços.
Não assisito o Big brother porque não gosto. Mas concordo com tudo que você disse no post.
Comment por Bruno Marques Abril 12, 2009 @ 8:14 pmParabéns pelo blog.
Disse e repito: sensacional. Assino em baixo.
Comment por sagamundo Abril 12, 2009 @ 11:26 pmMil bjs,
marida.
Durante um ano eu pensei em escrever que assistia big brother e porquê. Nunca consegui.
Gênero, número e grau(sic)
Um abraço, hermano!
Comment por Junior Abril 15, 2009 @ 12:45 am