Tratado das pequenas coisas


A imprevisibilidade do drama
Abril 16, 2009, 1:32 pm
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Odeio matemática, sempre odiei. Odeio que ela esteja em todas as coisas que podiam ser livres e belas, como a música, que podia ser só intuição, como o formato dos objetos, que podia ser mero acaso, como nós, que podíamos ser apenas sentimentos, lembranças, silêncio. Mas tudo é matemática. Que por mais razoável que pareça, não decifro, não desvendo. Entre dois números racionais, há sempre um irracional tentando sobreviver à previsibilidade.

Este sou eu. Comprando comida no supermercado, ajeitando os móveis de casa, enumerando meus livros, as canetas, os produtos em cima da pia, os pratos na mesa, equilibrando as massas: aqui tem um controle remoto, uma caixa de som, um celular, um fone, um cd; do outro lado tem um pote de biscoito, um abajur, uma caneta, um remédio de nariz, outra caixa de som, outro controle e um livro. Passa dois itens pra cá, devolve três pro lado de lá, volta com dois pra cá, mas ainda não está direito… Então queimo, destruo um objeto ou dois, ou o necessário, e assim encaro a face do mundo, tentando por ordem em tanto caos, em tanta desarmonia matemática, em tanta desobediência à lei perfeita do logos.

O que vejo são linhas traçadas no ar e que, quando interrompidas, causam doenças, guerras, maldades, imperfeições, ilusões. E prossigo, buscando os inteiros, pra isso, destruindo pontes, casas, matando pessoas desnecessárias, cortando árvores avulsas, explodindo cidades fracionárias. Fui me aprimorando e já havia cortado de mim alguns dedos, um braço, uma orelha sem propósito, um nariz ostensivo, quando percebi com clareza como resolver a questão. Claro, só havia um único número irracional ainda resistindo entre a perfeição dos inteiros! Um único elemento impedindo a solução do problema, mas claro!, estava tão evidente como a descoberta de uma nova fórmula! Agora sinto a paz deitar-se ao meu lado, sinto a recompensa por tanto esforço, enfim um descanso merecido… cumpri o que em mim fazia sentido e isso basta.

Atira na cabeça. O corpo estrebucha. Depois levanta com os miolos estourados. Grita, não de dor, mas de frustração.

Mas nem assim essa aflição tem fim! Nem assim! É um fardo, uma maldição que carrego de ser quem sou! Que ingênuo fui ao acreditar que esse tiro teria algum efeito! Não sou feito de morrer, sou um expurgo irracional de uma mente inteira, a mente do autor! Sou uma criação da ficção, que é só feita de ideia e delírio e não se esgota! Sou uma equação matemática dentro de uma equação dramática!


1 Comentário até o momento
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Esse é o o devaneio poético mais sofisticado e referencial que já li. Que indefinição prosaica, primo… bela e eterna. É, acho que é o meu favorito.

Um abraço!

Comment por erickcavalcanti




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